Do conceito à tela:Slave I

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Bem-vindo a “Do conceito à tela”, uma série de artigos sobre as várias fases de produção que o seu personagem, veículo, criatura, localização, ou cena favorito da saga Star Wars precisou atravessar antes de chegar à tela do cinema.

A Slave I detém tanto mistério e histórias interessantes quanto seu proprietário, Boba Fett. Nesta edição, vamos dar uma olhada por trás das placas do casco e ver o que fez a Slave I voar para a tela e para dentro de nossos corações.

Arte conceitual da Slave I por Rodis-Jamero

Arte conceitual da Slave I por Rodis-Jamero

Conceito

Os caçadores de recompensas que estão perseguindo Han Solo, incluindo Boba Fett, não são mencionados até a segunda versão do rascunho para O Império Contra Ataca. Enquanto o projeto não especificava nada sobre sua nave, ele inclui cenas chave como Han sendo congelado e sequestrado, então uma nave teria de ser concebida. Este trabalho, como de costume, ficou sob a responsabilidade de Ralph McQuarrie e Joe Johnston. Enquanto a maior parte da nave acabaria sendo projetada por Nilo Rodis-Jamero, McQuarrie originalmente teve a ideia de fazer os Ugnaughts trabalharem para Fett, e, portanto, projetou uma cabine do piloto muito maior com uma fileira de bancos atrás da cadeira do piloto.

Com os designs anteriores de Rodis-Jamero inspirados em um prato de radar que o artista havia visto um dia, os desenhos originais mostravam uma versão mais redonda e em forma de esfera da nave. A forma posterior e mais elíptica se originou de uma vista lateral confusa, que se tornou a nova direção sobre como desenhar a nave. Esta forma elíptica é mais evidente quando se olha para a popa.

A crença popular é que a forma da nave foi baseada nas luzes de rua que aparecem fora do prédio Marin County da ILM, mas Rodis-Jamero diz que isto é uma mera coincidência. Além das luzes de rua, a forma da Slave I estava também ligada, de forma jocosa, à de um ferro de passar. John van Vliet (um dos supervisores de efeitos visuais) costumava desenhar uma imagem da nave sendo usada por uma mulher para passar roupas.

Trabalhando no modelo - Ken Ralston prepara o modelo para a animação. Detalhe da cabine do piloto do modelo.

Trabalhando no modelo – Ken Ralston prepara o modelo para a animação. Detalhe da cabine do piloto do modelo.

Modelo

Com um design atípico e uma abóbada curva, era responsabilidade de Lorne Petersen e sua equipe construir o modelo real que foi visto em voo. Como medida de precaução contra eventuais reflexos saltando fora da curva e bagunçando a filmagem sempre que a câmera passava, eles decidiram se certificar de que cada modelo tinha para-brisas intercambiáveis – um completamente transparente e outro opaco. Por trás desse para-brisas – e, assim, especialmente visível com o transparente instalado – estava uma cabine do piloto detalhada desenhada por Ease Owyeung

A equipe optou por usar a animação stop motion para exibir as asas de apoio da Slave I. Com todos os detalhes que a equipe adicionou à nave, eles esperavam vê-la no próximo filme, mas, no final, apenas Boba Fett retornou para Return of the Jedi.

Ellenshaw trabalhando na pintura fosca da Plataforma de Desembarque Leste.

Ellenshaw trabalhando na pintura fosca da Plataforma de Desembarque Leste.

À tela de cinema

Com um cronograma de filmagens de 19 dias, Jeremy Bulloch (o ator que interpretou Boba Fett) gastou muito de seu tempo em vários cenários e não com a Slave I. Seu último dia de filmagem no entanto, envolveu a cena da cabine do piloto que foi construída por Ted e Ambrose e a segunda unidade. Com base na arte conceitual de Rodis-Jamero, o cenário foi parcialmente construído com painéis de controle do estoque, reciclados do cenário do Star Destroyer. Para fazer com que parecessem diferentes, os painéis foram colocados de cabeça para baixo e vários botões foram acrescentados.

Durante os próximos dois meses, o ILM filmou modelos de várias naves, como os carros aéreos de duas cápsulas. Eles também filmaram a cena onde a Slave I voa através de detritos espaciais, e quando a nave é vista deixando a Cidade das Nuvens.

A cena em O Império Contra Ataca da Slave I parada na Plataforma de Desembarque Leste quando Han Solo está sendo carregado é uma combinação de muitos elementos. Um modelo fotografado da nave, excluindo a cabine do piloto, foi combinado com pinturas foscas por Harrison Ellenshaw, que também pintou a cabine do piloto. Em seguida, imagens ao vivo foram adicionadas dos Fett, um stormtrooper, e Bossk o caçador de recompensas Trandoshano. Para fazer o bloco de carbonite flutuar, eles usaram uma empilhadeira e a disfarçaram com uma luz piscando em vermelho – uma forma de dupla exposição que Ellenshaw chama de “divisão dupla.”

Som

Arte conceitual de Doug Chiang para Ataque dos Clones. Detalhes da cabine do piloto da Slave I por Kurt Kaufman.

Arte conceitual de Doug Chiang para Ataque dos Clones. Detalhes da cabine do piloto da Slave I por Kurt Kaufman.

Para criar o som da Slave I, Ben Burtt fez o que sempre fazia quando precisava criar um som para uma nave espacial: olhou para a forma como a nave foi projetada, com o que se parecia, quão rápido ela iria se mover, e o que ela podia fazer. Para o som da decolagem da Slave I, Burtt combinou a lamentação de um trompete com a buzina do seu próprio Dodge Duster 1971 enquanto ele estava em uma estrada do deserto.

Edição Especial

Para o lançamento da Edição Especial da trilogia original, em 1997, a ILM adicionou uma cena de CGI adicional da Slave I perseguindo o Millennium Falcon para fora do lixo flutuante do Star Destroyer.

Voltando para o Ataque dos Clones

Adicionado nos primeiros rascunhos do roteiro, J’mee Fett (ou Jango como viemos a conhecê-lo, eventualmente), foi criado para ser o antecessor para o Boba Fett adulto e os stormtroopers que vimos na trilogia original. Embora haja pouca informação conhecida sobre esses roteiros iniciais, é seguro presumir que sempre houve algum papel planejado para a Slave I, considerando que o filme lidava com as origens de Boba. Originalmente, o traje de Jango deveria ser branco como os dos clone troopers (assim como o design conceitual original para Boba), mas ao experimentar com materiais eles chegaram à cor de prata acabaram usando. A Slave I seguiu a mesma linha, com um esquema de cor correspondente ao traje de Jango e algo d aparência muito mais fresca e mais recente do que as cores que a nave tinha enquanto Boba voou com ela.

Ao contrário dos modelos utilizados para O Império Contra Ataca, a maior parte da nave seria criada digitalmente para o Ataque dos Clones. Com o modelo original da Slave I em exposição no Smithsonian em Washington, os modeladores de computador da ILM se basearam em referências fotográficas. Pelas poucas cenas de reação que vimos de Jango e Boba voando na nave, a equipe novamente construiu uma cabine de piloto real com base na arte conceitual de Kurt Kaufman, mas desta vez com mais detalhes do que a original. A plataforma de desembarque Kamino foi construída no palco para a cena de luta, e a Slave I foi adicionada mais tarde digitalmente. Pode-se supor que eles usaram caixas verdes para criar uma rampa para Temuera Morrison caminhar quando embarcou na nave depois da cena de luta. Este conjunto seria também ser utilizado para a chegada de Obi-Wan, com um modelo de starfighter Jedi adicionado ao fundo.

Como acontece com a cena de luta entre Jango e Obi-Wan, as pessoas da ILM fizeram uma animação para a cena de perseguição no cinturão de asteroides entre o Delta-7 de Obi-Wan e a Slave I. Morrison viria a revelar quão útil era para ele ver toda a cena já pronta, para que ele pudesse saber exatamente onde suas peças se encaixariam. O roteiro originalmente descrevia essa cena de perseguição como sendo muito mais calma e mais como um jogo mortal de gato e rato, mas isso foi mudado após o primeiro corte do filme por razões de andamento.

Com o retorno da Slave I em um papel mais cheio de ação, a biblioteca de sons precisou ser ampliada a partir do som de decolagem que foi feito para O Império Contra Ataca. Eles incluíram um efeito de sobrevoo e sons para os mísseis guiados por calor (tornados realistas pelo uso de telemetria) e canhões de laser da nave. No entanto, o grande momento de som foi o das cargas sísmicas que a Slave I lança para se livrar de Obi-Wan Kenobi.

A ideia por trás dessa arma e da explosão realmente ressoava de volta ao que Ben Burtt havia tentado criar durante a produção de Uma Nova Esperança. Burtt experimentou muito com o que chamou de “explosões no éter do espaço”, que eram explosões no espaço que deveriam soar de modo diferente do que as explosões que alguém iria ouvir na atmosfera de um planeta. No entanto, Lucas não gostou deles e acabou se decidindo pelos sons ouvidos no filme. Para completar o efeito sonoro, Burtt adicionou um delay que criaria um buraco negro de áudio antes do baque da arma sônica. Isto foi inspirado pelos raios da vida real, que muitas vezes você vê antes de ouvir o trovão. A fonte do baque em si ainda é desconhecida e é algo que Burtt prefere manter em segredo. Uma ausência de som em um filme é uma coisa tão sem precedentes, que os técnicos que avaliaram este filme disseram que havia um problema de áudio com o rolo que precisava ser corrigido.

Imagem detalhada modelo da Slave I para As Guerras Clônicas

Imagem detalhada modelo da Slave I para As Guerras Clônicas.

As Guerras Clônicas

Muito cedo no processo de escrever a história de A Vingança dos Sith, Lucas pensou em fazer Boba Fett retornar, mas rapidamente desistiu, já que o foco do filme era a queda de Anakin para o lado negro. O boato na época previa o retorno de Boba com a Slave I para se vingar de Mace Windu e muito possivelmente acabar matando-o, mostrando por que Darth Vader o advertiu em O Império Contra Ataca contra desintegrar sua recompensa. Agora, não sabemos bem o que há de verdade nesses rumores, mas soa muito semelhante aos episódios “Death Trap”, “R2 Come Home” e “Lethal Trackdown” da Segunda Temporada de As Guerras Clônicas. Nesses episódios veríamos Boba Fett – com a ajuda de Bossk e Aurra Sing – tentando eliminar Mace Windu e em vez disso acabando sendo capturado por Mace e Anakin. A cena mais memorável nesses episódios para a Slave I seria no final, onde Ahsoka usa a Força para agarrar-se ao lado de fora da nave enquanto ela tenta fugir com Aurra Sing. Ahsoka acabou cortando em fatias uma das asas estabilizadoras e a Slave I caiu em uma enorme explosão. Estes episódios expandiriam o design da nave para incluir uma escotilha e apresentariam uma versão mais moderada da cor azul e branca que Jango havia pintado originalmente. Um detalhe legal do design original de Ralph McQuarrie também faria a nave mais parecida com a versão CG – com uma cabine do piloto maior, um assento extra, e espaço para pessoas ficarem atrás da cadeira do piloto.

Somente em “A Necessary Bond”, o nono episódio da quinta temporada, iriamos ver o que aconteceu com a Slave I após o acidente. Este episódio revela que a nave foi levada para um hangar secreto de Hondo Ohnaka, que a reconstruiu e pintou nas familiares cores verde oliva e marrom que viemos a conhecer. A única diferença, além da pintura ser mais fresca e mais rica em cores, foi a adição do logotipo pessoal do pirata Weequay. A arte conceitual para este episódio, como visto no guia de episódios em StarWars.com, mostraria as quatro fases de cores pelas quais a Slave I passaria em sua carreira.

Não importa se a nave é azul e branca ou verde oliva e marrom, não há dúvida sobre o charme que a Slave I tinha e não podemos esperar para vê-la aparecer novamente. Quem sabe, talvez algum dia chegaremos a ver exatamente como Boba Fett conseguiu a nave de volta de Hondo!

Para mais imagens apresentando a Slave I, visite nosso Tumblr e Instagram oficiais, nos quais a nave é o foco desta semana!

Fontes: O Making of de O Império Contra Ataca, Os Sons de Star Wars, Esculpindo uma Galáxia e Criação de Mitos de Star Wars: Nos bastidores de Aotc.

Sander de Lange (Exar Xan) da Holanda, trabalhou no recurso “Rogues Gallery” em Star Wars Insider e escreveu a história pregressa para Niai Fieso através de “What’s the Story?” Ele é um dos editores do Teekay-421 – o Fã Clube belga de Star Wars – e é um dos administradores da página Star Wars Sourcebooks no Facebook. Tendo nascido em Deventer, uma cidade usada para filmar o mundialmente famoso filme Uma Ponte Longe Demais, ele sempre teve uma paixão por locais de filmagem e turismo, nos quais ele espera encontrar um emprego.

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