Entrevista: Dave Filoni Sobre Star Wars Rebels, Parte 1

Na primeira parte de uma entrevista exclusiva, o produtor executivo de Star Wars Rebels analisa como o programa passou do conceito à série.

Como diretor geral de Star Wars: A Guerra dos Clones, Dave Filoni trabalhou lado a lado com George Lucas, na expansão dos mitos de Star Wars, intensificação de personagens marcantes e introdução de novos protagonistas importantes, como Ahsoka Tano. Agora, como produtor executivo de Star Wars Rebels, ele e seus principais colaboradores trabalham nisso outra vez. Com a ação acontecendo na era do Império, a série acompanha um grupo diversificado de novos Rebeldes: Kanan, o Jedi incompleto; Ezra, o Padawan atormentado; Hera, pilota habilidosa e o coração da equipe; Zeb, o alienígena bruto, mas inteligente; Sabine, a especialista em explosivos e artista; e Chopper, o (muito) ranzinza, porém adorável droide astromecânico. As apostas em Star Wars Rebels são cada vez maiores, passando de simples missões de roubo de carga ao uso perigoso por Ezra do lado sombrio da Força e a uma perseguição implacável do Império a nossos heróis, com a morte sendo um resultado muito possível para alguns. Antes do último episódio da temporada na próxima semana, o site StarWars.com visitou Filoni em seu escritório para uma entrevista sobre o programa. Em seu primeiro episódio, Filoni revela como ocorreu a criação de Star Wars Rebels. Ele analisa os primeiros conceitos da história, a influência contínua de Lucas e, surpreendentemente, abre seus próprios arquivos pessoais.

StarWars.com: Quero falar sobre os primórdios, o tempo em que a série Guerra dos Clones estava terminando e antes de você saber o que viria a seguir. Que ideias você tinha para uma nova série e elas foram usadas em Rebels?

Dave Filoni: Bom, ainda estávamos terminando Guerra dos Clones quando começamos a desenvolver Rebels. Tínhamos algumas ideias sobre fazer algo com as forças Rebeldes ou Padawans em fuga. Parecia uma progressão natural para uma história depois de Guerra dos Clones e A Vingança dos Sith, mas antes de Uma Nova Esperança.

Eu fui ensinado a pensar em Star Wars como uma peça única, uma história completa, então isso era a coisa mais importante para mim.

StarWars.com: Quando você diz que foi ensinado a ver Star Wars como um todo, isso foi algo que aprendeu com George Lucas?

Dave Filoni: Ah sim. Tudo o que eu aprendi sobre fazer Star Wars veio do George. Estou aqui há 10 anos e, mesmo que George não tenha estado presente nos últimos dois anos, tudo o que eu faço agora se baseia em nossas discussões, sessões editoriais e reuniões de história. É assim que eu ainda tento informar o que estou fazendo agora em Rebels — com os fundamentos de Star Wars.

Ao mesmo tempo, acho que devemos manter a mente aberta e um olho no futuro e nas possibilidades de evolução de histórias e tipos de personagens. É por isso que eu queria que Sabine fosse uma artista. Eu ainda não tinha visto isso em Star Wars.

StarWars.com: Eu também imagino que você queria se animar, do ponto de vista criativo. Então você não quer se repetir. Além disso, embora os fãs possam não perceber isso na hora, se eles estiverem vendo coisas que já viram antes, não vai ser tão interessante.

Dave Filoni: Pois é. É surpreendente a frequência com que você se repete, mesmo que diga a si mesmo que não está fazendo isso. [Risos] Como roteirista, eu acho que não consigo evitar isso, às vezes. Eu tenho um certo método de fazer as coisas. Quando tenho uma cena, eu filmo de uma determinada maneira. Há cenas em que eu filmo com Anakin e Ahsoka que são muito parecidas com cenas que eu faço com Kanan e Ezra. A composição do enquadramento e todo o resto. Você não quer repetir certos padrões que fazem de Star Wars o que é, mas encontrar esses cenários e armadilhas e torná-los originais é difícil.

Não éramos tão bons no início de Guerra dos Clones. [Risos] Literalmente, tínhamos caras em um palácio que caíam pelo chão e em um poço de rancor. Nossa, onde eu já tinha visto isso antes? Melhoramos muito no final.

StarWars.com: Você, Simon Kinberg e Carrie Beck são considerados os cocriadores de Star Wars Rebels. Eu conversei com Simon e parece que ele contribuiu principalmente com a ideia de uma dinâmica familiar para a tripulação do Fantasma. Você pode falar um pouco sobre como surgiu o conceito geral do programa?

Dave Filoni: Difícil dizer. Foi tanta colaboração. Rebels não é uma ideia que um de nós teve. Só queríamos fazer um programa de qualidade e dar sequência a Guerra dos Clones de uma maneira boa, porém diferente.

Todos tínhamos conceitos diferentes para histórias. Carrie teve uma ideia de que todos gostamos, de um grupo no estilo do Esquadrão Classe A, então ela ficou em discussão. Eu tinha uma obsessão pelos pilotos de Star Wars. Estou com muita vontade de fazer algo não relacionado à Força e só sobre pilotos, que é o que eu considerava uma grande parte de Star Wars quando era garoto. Assim, todos tínhamos ideias diferentes, mas com [os executivos de criação] Kiri [Hart], Rayne [Roberts], Carrie e eu reunidos, decidimos nos concentrar na ideia do Esquadrão Classe A. Sempre estou desenhando nessas reuniões e foi aí que parte da criação dos primeiros personagens começou. Quando encontramos Simon, ele disse: “Vamos nos concentrar nessa dinâmica familiar”, então criei um garoto, a mãe e um pai. [Nesse ponto da entrevista, Dave se dirige ao seu computador e pega um desenho.]

"Tower Story," o conceito inicial de Dave Filoni para Star Wars Rebels

Esse foi o primeiro desenho que eu fiz quando ele disse, “OK, é exatamente assim que queremos que o programa fique”. Eu o chamava de “Tower Story”, pois queria que essas torres existissem no programa.

StarWars.com: A torre de comunicações onde Ezra mora?

Dave Filoni: Sim. Você pode ver que ela está marcada como 2013. Eu fiz esse desenho depois de falar com Simon e Kiri sobre Rebels e eu queria capturar o sentimento que eu tive quando criança quando vi os caças TIE pela primeira vez. Chopper tem um domo aqui. Ele era mais como uma unidade R2, mas ainda tinha pernas desiguais e algumas outras coisas.

Eu tinha [o designer] Kilian [Plunkett] e a equipe de design trabalhando nos primórdios da arquitetura e na aparência do programa.

Eu mostrava a eles desenhos como esse. [Dave pega outro conceito inicial em seu computador.]

Uma cena inicial da tripulação do Fantasma em Star Wars Rebels de Dave Filoni

Isso é divertido, porque mostra como seriam os personagens no início do projeto. Também há uma imagem antiga do Fantasma aqui. Ele era muito mais como um B-17. Zeb era um ithoriano. Kanan era mais parecido com Roy Fokker. A personagem de Hera/Sabine era combinada e mais jovem e Ezra em seu figurino inicial e um capacete de stormtrooper quebrado.

StarWars.com: Bom, deixe-me perguntar. Quando começa, como você, como artista e produtor executivo, pensa: “Esse visual não está funcionando para o Ezra. Não queremos que Zeb seja um cabeça de martelo.”

Dave Filoni: Em sua maioria, esses visuais permaneceram. O antigo Kanan tinha um braço robótico, mas ninguém gostava disso de verdade. Estávamos apenas debatendo. Eu me sentava e dizia “Bem, tente fazer um ithoriano. Vamos ver como fica.” [Dave pega mais uma arte conceitual.]

Arte conceitual inicial de Ezra para Star Wars Rebels, de Dave Filoni

Esse foi o meu desenho inicial de Ezra quando ele ainda era denominado “The Kid”. Foi esse desenho que usei para estruturar seu personagem e o estilo do programa.

StarWars.com: Laranja foi a cor escolhida desde o início? Ela remete à Aliança Rebelde, obviamente.

Dave Filoni: Sim. Sabe, eu gosto disso. Então eu usei. [Dave mostra mais arte conceitual.]

Um desenho conceitual inicial de Kanan de Star Wars Rebels feito por Dave Filoni
Esse foi o meu primeiro desenho de Kanan que eu realmente senti que capturava o personagem.

StarWars.com: Nossa, uau. Ele é muito parecido com a versão final.

Dave Filoni: Sim. Essa é a atitude. Eu me inspirei em Judd Nelson no filme Clube dos Cinco. Há uma foto promocional dele sentado desse jeito.

[Agora, Dave pega as pinturas conceituais de Ralph McQuarrie da trilogia original.]

Eu tinha todas essas imagens e as mostrei para a [presidente da Lucasfilm] Kathy [Kennedy], para que ela pudesse visualizar a estética que estávamos seguindo.

Arte conceitual de Ralph McQuarrie da trilogia original de Star Wars, usada como inspiração para Star Wars Rebels

Aqui está a Capital.

Arte conceitual de Ralph McQuarrie da trilogia original de Star Wars, usada como inspiração para Star Wars Rebels

Esse é um exemplo dos desenhos de ambientes que eu queria para a série.

Arte conceitual de Ralph McQuarrie da trilogia original de Star Wars, usada como inspiração para Star Wars Rebels

Arte conceitual de Ralph McQuarrie da trilogia original de Star Wars, usada como inspiração para Star Wars Rebels

A paisagem de Lothal…

Arte conceitual de Ralph McQuarrie da trilogia original de Star Wars, usada como inspiração para Star Wars Rebels

…e as ruas de Lothal.

StarWars.com: Isso é só por causa do período de tempo em que Rebels é ambientado ou você gosta de alguma coisa no trabalho de McQuarrie?

Dave Filoni: Nós queríamos algo que remetesse à trilogia original, então sugeri que nos baseássemos nos desenhos de Ralph. Eu queria fazer isso na série Guerra dos Clones, mas honestamente, não tínhamos o know-how para isso naquela época. Mas conseguimos fazer isso com Rebels, com personagens de formas arredondadas e itens mais de animação clássica.

StarWars.com: Rebels também é bem mais intimista do que Guerra dos Clones.

Dave Filoni: Ah, sim, eu acho que, nesse sentido, o programa reflete os filmes antigos, que não divagavam tanto quanto as prequels. Espero que essa seja outra semelhança boa.

StarWars.com: Agora que você é creditado tanto como produtor executivo quanto como diretor geral em Rebels, como isso mudou suas responsabilidades diárias na série, em comparação com Guerra dos Clones?

Dave Filoni: Na verdade, meu trabalho não é diferente do que foi em Guerra dos Clones, a não ser pelo fato de que nesse último, fomos apenas George e eu. Depois dos primeiros dois anos, não tive que mais que debater tanto com ele. Eu tinha meus redatores para debater ideias, mas no dia a dia, não havia ninguém lá, apenas meus diretores de episódios e eu para fazer com que as histórias funcionassem, o que significava que eu mesmo tinha que cuidar de reescrever. Star Wars é diferente dos outros programas nesse sentido; nós não recebemos um script e simplesmente executamos o que está na página. Nós desenvolvemos cada cena através da encenação, câmeras, diálogos. Tudo é questionado em uma tentativa de melhorar a história. Um exemplo disso seria o arco de Yoda na temporada seis de Guerra dos Clones. Originalmente, Yoda tem uma visão de Petro deitado no chão falando com ele, mas mudei isso de Petro para Ahsoka — alguém que o público conhecia melhor e de quem gostava. Foi uma mudança simples, mas o novo diálogo deu um significado mais profundo à cena.

Em Rebels, quando eu retrabalhava em algo na parte editorial, tinha uma equipe para me ajudar a refinar o diálogo e verificar as questões lógicas. Na metade final da temporada um em Rebels, Kiri, Simon e eu escrevíamos e reescrevíamos e depois passávamos o script entre nós e fazíamos ajustes. Um bom exemplo disso é o episódio de Yoda em Rebels, que tinha um script muito diferente. Cikatro Vizago estava nesse episódio e tentaria capturar Kanan e Ezra fora do Templo.

Todos trabalham duro quando fazemos essa mudança, pois temos pouco tempo para elas, mas no final sempre vale a pena. Tentamos adotar um processo de longa-metragem e compactá-lo em algumas semanas. Ter um grupo que colabora bem e lida bem com as mudanças é essencial para o nosso sucesso.

StarWars.com: Então você gostou da colaboração.

Dave Filoni: Gostei sim. Esse foi um ponto forte. Muito disso tem a ver com as pessoas com quem trabalho: Simon, Kiri, Carrie e Rayne. Eles são ótimas pessoas.

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Volte mais tarde esta semana para a parte dois da entrevista de StarWars.com com Dave Filoni!

Dan Brooks é redator de conteúdo sênior da Lucasfilm e passa seus dias escrevendo matérias para o StarWars.com. Ele adora Star Wars, ELO e os New York Rangers, New York Jets e New York Yankees. Siga-o no Twitter @dan_brooks, onde ele fala sobre tudo isso.

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